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Playlist e resenha: Privacidade, Músicas e Musas

26 de abril de 2016

Esse post está nos rascunhos desde março (era para o dia da mulher), porque eu tenho medo de falar qualquer coisa relacionada a feminismo. E acredito que muita gente também tem. Se você acha que alguma coisa aqui está errada, puxe uma cadeira, vamos conversar.

Em 2013, em um endereço que não existe mais, fiz um post sobre o livro Músicas e Musas que teve um burburinho bem gostoso. Sou ruim de previsão pra saber quando um post cativa ou não, mas várias migas vieram me dizer que compraram o livro e mais de uma vez o assunto foi debatido numa mesa de bar. A Tati até escreveu um post.

APTO 401 - Músicas e Musas

O livro é a tradução do A Girl in the Song e trás a história de 50 mulheres que inspiraram grandes clássicos pop. A edição é muito linda, capa dura, papel bom , fotos com boa qualidade. A versão brasileira tem estética idêntica a original, então nesse ponto você não perde nada comprando a tradução aqui.

Na primeira vez que li esse livro, vi ali apenas o que estava escancarado: um toquezinho de fofoca, muitos casais pra shippar, finais felizes, finais tristes e o amor. O amor bonito. Mas em três anos, a gente aprendeu muito.

Não vou entrar aqui na questão de apenas uma música ter sido escrita por uma mulher (e essa música ser cheia de ódio) ou na maneira exclusivamente romântica como as outras 49 foram retratadas no livro (vai ter um outro post pra isso, dsclp, pois cometi textões), mas em duas histórias específicas.

Diana Ayoub, teve uma multidão de repórteres invadindo desde o seu quarto (colocando uma escada do lado de fora da sua janela no meio da noite) até sua formatura do colegial, porque todos queriam saber quem era a mulher que deu nome a música de Paul Anka, hit da época. Ele era um menino de 15 anos que se apaixonou pela garota mais velha (ela tinha 18), não foi correspondido e fez uma música sobre isso. Paul ganhou rios de dinheiro. Diana teve a vida exposta e tumultuada durante anos, até finalmente conseguir um pouco de paz sendo gerente do armazém de uma atacadista de roupas em Ottawa.

Helô Pinheiro, única brasileira do livro e mundialmente conhecida pela música de Tom e Vinicius, nunca ganhou um centavo com a composição que inspirou (e, segundo conta, nem pediu por isso – e ninguém aqui está pedindo também), mas quando tentou registrar a marca “Garota de Ipanema” para sua loja de moda praia, foi processada pelos filhos de Vinícius. Tudo bem ser musa, tudo bem estar apenas andando até a praia e de repente ter um país inteiro falando de suas curvas só porque você cruzou com dois compositores no caminho. Tudo bem tirar a roupa para a Playboy, porque é isso que o país inteiro quer ver, mas não ouse lucrar com isso de alguma forma que não seja mostrando o corpo (abrindo seu próprio negócio, por exemplo).

Não é como se Helô, no Brasil de 1962, pudesse ser alguma coisa além de A Garota de Ipanema, não é como se ela pudesse chegar em qualquer empresa escritório e ser bancária, advogada, administradora. Não é como se Diana, perseguida por repórteres e com o rosto divulgado a quatro cantos, pudesse ser uma funcionária comum sem levar tumulto por onde passava.Alguém decidiu por elas.

Nas páginas de Músicas e Musas ainda consigo ver parte do amor lá da minha primeira lida há três anos (temos Maybe I’m Amazed, afinal de contas), mas não consigo esquecer como Diana e Helô tiveram seus espaços invadidos. E que isso mudou suas vidas para sempre. E que ninguém se importa com isso, porque elas são “musas” e deveriam se sentir ~honradas~ com os elogios e pela atenção.

A música de Paul Anka completa seis décadas em 2016, seis anos a mais que a de Tom e Vinícius, mas hoje ainda vivemos essa cultura de que ter o espaço invadido pode ser até uma coisa positiva. Para muitos ainda é inadmissível que essas mulheres se incomodem com uma letra de música expondo sua intimidade e seu corpo, assim como é irracional não gostar dos ~elogios~ gratuitos dos desconhecidos que passam na rua. E todo oito-de-março, é absurdo não achar lisonjeiro receber a droga da flor.

Já são três anos desde a minha primeira leitura, nesse meio tempo conheci na pele um machismo que ainda era inédito pra mim, que desmerece minha capacidade intelectual e acha que meu corpo é propriedade pública. Mas também aprendi que a gente pode sim fazer barulho, que a gente não vai aceitar assovio na rua e que doa a quem doer, quem vai mandar no meu corpo e na minha privacidade sou eu.

APTO 401 - Músicas e Musas

Playlist: Músicas e Musas

Fica aqui a playlist com as 51 músicas do livro (Pattie Boyd ganhou duas), porque alguns desses senhores realmente tinham algo a dizer. Porque quando todos os envolvidos estão de acordo, existem formas lindas de demonstrar sentimentos. Com flores, chocolates, com um “gostosa” e com músicas.

Ainda vai ter post do livro “A Boy in the Song“. E aí a gente conversa mais.
E ainda vai ter playlist das minas pras minas (e eu vou precisar muito da ajuda de vocês).