Pessoal

Aquela vez que teve um N na janela

18 de dezembro de 2017

Natal me lembra aquele vez que teve um “N” na janela.

Eu morava em um prédio. E tinha a turma do prédio. E tinha um menino no andar de cima que gostava de mim. Eu não gostava dele. Nos dois casos estamos empregando o termo gostar com o peso que os adolescentes davam para a palavra em 2003 (e não sei se ainda se aplica hoje). Eu era muito tímida. Ele era muito tímido. Logo, era de interesse mútuo que ninguém soubesse que aquilo estava acontecendo. E como sabemos bem, pela frase de Dumbledore ou não, é lógico que todo mundo sabia que aquilo estava acontecendo.

Nós recebíamos todo o tratamento nada discreto que cabe a um grupo da idade: risinhos, indiretas, diretas, armações, piadinhas, trocadilhos. Tudo muito normal. Até o dia que o menino tinha pouco pisca-pisca em casa.

Incumbido da tarefa de instalar as luzinhas de Natal do apartamento, qual não foi a surpresa do nosso herói ao notar que o fio não era suficiente para uma volta inteira na janela? Astuto, depois de breve reflexão, resolveu o problema improvisando um “N” (“N de Natal” contou orgulhoso aos tios quando chegaram em casa a noite). Brasileirasso, nem precisou da teoria de que a hipotenusa é sempre menor que a soma dos catetos, apenas na observação foi lá e fez.

Sabe quem também tem um nome que começa com N? É.

E adolescente não enxerga “N” de Natal instalado em cima de apartamento de crush alheio. O adolescente só vê maldade. A avenida lá do prédio era mão única, de modo que na primeira noite, todo mundo que chegou da rua já foi recebido pelo tal “N na janela”.

A zoeira do “N na janela” se estendeu por aquele dezembro, na intensidade que as zoeiras das turmas de prédio se estendem em dezembro: intensa como as férias – até sumir em janeiro quando parte do grupo vai deixar de ser rebelde passando as férias na casa da vó.

Mas as vezes, em dezembro, o assunto ainda surge na mesa do bar, com o gosto de piada interna e saudosismo, já que tive a sorte de escolher a minha família na turma do prédio e lembro de tudo isso quando a menina loira que apresento pra todo mundo como minha irmã fala “Lembra do N na janela?”.

gimore-girls-natal.gif

You Might Also Like

5 Comments

  • Reply Bruna Baez 18 de dezembro de 2017 at 10:07

    Ai, que delícia de história! Principalmente por ser de verdade, me senti lendo um breve conto de Natal, do tipo que adoro. Concordo que na época não deve ter sido NADA legal, mas ter essa lembrança para dividir com as mesmas pessoas da época já valeu a zuera, com certeza! Beijos.

  • Reply Wanila goularte 20 de dezembro de 2017 at 12:56

    Hahaha, posso imaginar a cena do pessoal vendo o N na janela e correndo pra zoar vocês dois!

  • Reply Tany 21 de dezembro de 2017 at 15:05

    Tadinho agora tô com a maior dó do menino que tentou só ser esperto pra não levar bronca dos tios e acabou sendo zoado pelo resto do ano todo! hahahah

  • Reply Tati 22 de dezembro de 2017 at 19:44

    Eu TOTALMENTE começaria uma comunicação via janelas, prevendo o sucesso de Stranger Things logo no ano de 2003
    (Mas que seria deveras fofo se fosse um N de Nicas, seria <3)

    Limonada (antigo Novembro Inconstante)

  • Reply Rayanne Buchweitz 26 de dezembro de 2017 at 23:05

    Que história de deixar o coração quentinho??? Mas poxa, imagina se fosse mesmo de nicas? hahaha Uma declaração dessas bicho

  • Leave a Reply