Durmo no chão para passar a noite em filas de show (chão mesmo que eu tenho preguiça de levar coisas, eu deito no concreto) e tenho zero problema com banheiro químico ou lugar sujo pra comer, basicamente, sou bem de boa com certas frescuras. Mas sempre tive um pézinho atrás com albergues. Minha primeira vez foi num hostel em Hong Kong.

Na data e questão em vinha de 50 (maravilhosos) dias batendo perna em Hong Kong: o primeiro deles eu dormi no aeroporto, os 49 seguintes dormi em faculdades e o último, por questões logísticas (e financeiras) ia precisar ser em um albergue.

Esse Hong Kong Inn era a primeira e mais bem avaliada acomodação do Hostel World, foi também indicação de alguns brasileiros que me encontraram lá. Reservei uma cama em um quarto compartilhado feminino para 4 pessoas por HK$ 239,00 (na época dava umas 60 dilmas). Como HK é muito ruim de taxi, deixei todas as minhas malas trancadas na estação central (de onde sai o trem pro aeroporto) e fiquei só com a mala de mão pra fazer correr (compras) de ultima hora.

O prédio ficava em Causeway Bay que é um bairro central de Hong Kong que eu amava fuçar a pé e onde as lojas fechavam muito, MUITO tarde (a Forever 21 DE RUA fechava à 1 da manhã), então eu fiquei batendo perna até umas onze e fui pro hostel.

Chegando lá, era um prédio bem zoneado, com tudo super apertado, mas né, estamos na China, superpopuloso, levante a mão, entre no clima. Fiz o check-in e o rapaz do balcão disse para eu seguir uma mocinha que me levaria té o meu quarto (e eu que sempre achei que hostel era um esquema faça você mesmo?!).

Eu segui e ela:

SAIU DO HOSTEL

E comecei a dar VOLTAS pelo bairro.

Vários rolês.

Vielas, becos, vielinhas.

E chegamos em um prédio velho cujo qual continha uma placa gigante com os dizeres: “PROIBIDO HOSPEDAR ESTRANHOS” (ou algo similar em um inglês mais ou menos).

“Prooooooonto, vou ser presa na minha última noite em Hong Kong, ser deportada e nunca mais vou poder voltar pra essa terra que tanto amo.”

Nisso já era quase meia noite e, no desespero, achei melhor entrar e meter o famoso louco, do que ir brigar de volta na recepção do hostel (que a essa altura já era lá na puta que pariu) e procurar outro lugar pra dormir (em Hong Kong!).

Subimos no APARTAMENTO de uma senhora que não falava nada de inglês e ela me levou pra um quarto até que arrumadinho, apontou pra uma cama de casal e disse que era ali que eu ia ficar. Tinha cara de ~um quarto feminino~ e eu pensei “pelo menos me dei bem e é uma cama grande”.

Quando comecei a arrumar a cama toda pra mim ela desanda a falar (repetidas vezes e sem pausa):

TWO PEOPLE, ONE BED!
TWO PEOPLE, ONE BED!
TWO PEOPLE, ONE BED!

E eu tentei explicar que estava sozinha. E tentei explicar que não ia dividir a cama com ninguém. E tentei explicar A MINHA VIDA. Nada.

TWO PEOPLE, ONE BED!

E cada frase que eu dizia:

TWO PEOPLE, ONE BED!

Alguém (não lembro quem, provavelmente a mocinha do hostel) tentou conversar mais ou menos com ela e o veredito da senhora era que eu tinha que esperar o próximo hóspede que chegasse e íamos dividir a cama de casal pois:

TWO PEOPLE, ONE BED!

Eu estava prestes a meter o famigerado louco, quando mais um funcionário do hostel e dois alemães (maravilhosos) entraram no apartamento.

Com a mais absoluta e sincera cara de pânico.

Eles me olharam perdida ali com a chinesa (TWO PEOPLE, ONE BED! TWO PEOPLE, ONE BED!), olharam aquele apartamento estranhíssimo e: decidiram que iam meter o famigerado louco também. Nisso começou todo mundo a falar (TWO PEOPLE, ONE BED!) e surgiu, do mais completo nada, um quartinho com um beliche estranhíssimo que era cama de casal na parte de baixo e cama de solteiro na parte de cima.

Eu e os alemães entramos e um acordo de que eu dormia na parte de solteiro e os dois na de casal e pela primeira vez em quinze minutos não se ouvia TWO PEOPLE, ONE BED! naquele local.

Conversamos pouco (nisso já era quase uma da manhã) e eles precisavam sair pra jantar, tinham chegado de um voo longo e etc, falaram pra eu trancar bem a porta do quarto e abrir apena se eu tivesse certeza que eram eles (obedeci que nem criança pós supernanny).

Saí bem cedinho no dia seguinte (era domingo em Hong Kong, meu dia preferido E meu último), eles estavam dormindo de forma muito hétero (em posição de defunto para não encostarem um no outro). Tomei banho, passei por uma pessoa dormindo no sofá da sala e um chinês dormindo no chão.

Hostel em Hong Kong

Hostel em Hong KongSó tirei essas duas fotos, já na ~~~porta~~~ de saída do apartamento, morrendo de medo de arrumar confusão.

Não peguei contato dos moços (e duvido que o hostel em Hong Kong tenha qualquer registro de nossa passagem por lá), mas foi uma boa história.

 

BEDA 2016