Existem alguns dias que mudam a vida da gente. Normalmente são os dias em que a gente tem as idéias mais estúpidas. No dia em questão, decidi ir a um show (meu primeiro show de todos os shows) em um lugar que eu não sabia o endereço, muito menos o caminho. Fui perguntando, de estação em estação, de ônibus em ônibus. Cheguei.

Estava tão preocupada com o caminho, que não calculei que estava sozinha e ia chegar lá e encontrar PESSOAS. Pessoas, pessoas everywhere. Se hoje ainda fico um pouco ansiosa frente a desconhecidos, a Nicas de 16 anos preferia andar de volta todo o caminho (que eu também não sabia) do que interagir com estranhos. Basicamente sentei na fila pedindo pra deus me levar (não aconteceu).

Trinta segundos depois, quatro pessoas sentaram atrás de mim. A mais falante vestia camiseta do grêmio (é mais ou menos um uniforme nos shows do Engenheiros do Hawaii), tinha um namorado e uma garrafa com um liquido que definitivamente não era toddynho. Faltavam SEIS horas pro começo da distribuição de senhas pro show na Fnac.

Não lembro exatamente quando a Ariane decidiu que eu precisava de proteção, mas estava corretíssima (foi minha cara de pânico). Lembro que ela disse algo como “vou te ensinar umas coisas“. Que mulher!

Ela me ensinou o que fazer quando a bestialidade humana transforma a distribuição de senhas no mais total e completo caos (de forma que eu já estava craque quando aconteceu – exatamente como ela disse que aconteceria). Me ensinou a expressão de dó exata que eu tinha que fazer nos tumultos para atrair a compaixão dos seguranças. Me ensinou a causar os tumultos em questão e sair impune. Me ensinou que iam me empurrar de verdade e que a minha única arma eram meus cotovelinhos. E me ensinou: como chegar na grade.

E na terceira música da noite, no momento em que Humberto Gessinger tira os óculos escuros e as-perna-chega-a-tremer, nós chegamos na grade.

E mais importante que tudo isso. Ariane me ensinou a como não deixar ninguém tirar a gente de lá.

Não tenho mais aquelas fotos. Nem as do Humberto Gessinger, nem a minha com os meus inesquecíveis primeiros amigos de fila, mas já perdi o número de shows que vi na grade desde então e eu devo tudo, absolutamente tudo, a menina Ariane com camisa do grêmio que estava matando aula no cursinho.

Filas de Shows10 anos depois: fila do Guns N Roses 2014 e meus amigos de virar a noite

BEDA 2016