Em julho de 2015, fiz uma coisa que já tinha dois anos que eu gritava pro mundo que ia fazer: eu andei 108 km a pé. Em três dias e meio. Veja bem, eu não sou blogueira fitness e se faço um exercício é pra emagrecer sim, nunca tentei enganar ninguém. Mas há três anos um amigo me convidou pra essa coisa de sair andando no meio do mato e foi assim que fui parar no Caminho da Fé.

108km a pé: Caminho da Fé

Onde

O Caminho da Fé é uma rota de 430km que liga Águas da Prata a Aparecida do Norte. Existem outros ramos antes de Águas da Prata e você pode começar de qualquer um deles (eu comecei antes, você quem determina seu percurso e ele pode chegar a 600km). Assim, você sai do estado de São Paulo, atravessa um pedaço de Minas Gerais e volta pra São Paulo. É a versão tupiniquim do caminho de Santiago de Compostela.

O que dizem é que Santiago é uma rota totalmente comercial, exatamente o oposto da rota brasileira. Aqui você fica na casa das pessoas. Você fica ali sentada na cozinha enquanto uma mulher (que você queria que fosse sua avó) pilota um fogão de lenha com muita maestria. Você não quer ir dormir depois de ter andado 30km porque quer ficar ali enquanto ela te conta mais uma história. Você sai de lá íntimo do cachorro da família e jura que vai voltar trazendo toda a sua família.

Os valores são quase que simbólicos: jantar + pernoite + café da manhã por 50 reais (incluindo roupa de banho, cama e um lugar pra lavar e secar as roupas da caminhada).

108km a pé: Caminho da Fé

Quando

Optei por fazer em julho e acho que essa é a escolha mais acertada possível. Ao contrário de Compostela, o Caminho da Fé tem muitas subidas e descidas, muitas, muitas curvas e muito, muito sol. Se tem uma coisa que dá pra dizer é que tem muito tudo nesse trajeto. Julho é o período ideal porque não chove (subir morro com lama significa dar dois passos pra frente e um pra trás) e as temperaturas estão bem mais amenas (a máxima que peguei foi de 27ºC, maravilha pra região).

Como

Nós fomos em dois. Meu (super) amigo já fez essa rota quatro vezes (é!) e também andou todos (eu disse to-dos) os ramos de Compostela (dá 1200km… em um mês), então fui basicamente com o grande herói das peregrinações. Isso fez toda a diferença porque voltei quase sem machucados. Passamos por muita gente com os pés sangrando (é!), peregrinos que tiveram que parar na metade. Eu posso fazer um post separado contando o que levei na mochila, o que foi importante e o que eu nem usei.

Desde janeiro eu estava com uma grande planilha (que eu inventei) com uma incrível programação de treinos e acontecimentos e outras maravilhosidades, mas acontece que andei um total de seis vezes umas três semanas antes de viajar e mesmo assim deu tudo certo. Resumindo: com dois ou três equipamentos chave você faz até mais que 100km sem grande problemas (e mesmo sem eles, ouvi histórias que garantem recuperação total).

108km a pé: Caminho da Fé

Porque

Tá aí uma questão. Algumas pessoas fazem esse caminho pra cumprir uma promessa, pra chutar o balde, pra buscar uma solução. Eu fiz pra andar. Não tive nenhuma grande revelação (mas todo mundo que eu conheci no Caminho diz que teve, de uma forma maior ou menor, de um jeito super intenso ou não). Sendo bem sincera uma grande revelação não ia fazer mal nenhum na época (esse blog não passou 15 meses fechado porque a vida tava muito maravilhosa), mas não fui lá buscando isso. Eu só queria andar e conhecer as pessoas das histórias que meu amigo contava.

Há alguns anos, eu tinha essa coisa de “Yes, sir” (carinhosamente chamada de #52Nuncas) em que toda semana precisava fazer algo que nunca tinha feito, precisava participar das coisas, precisava poder acordar no dia seguinte e falar “eu fiz isso!”. Essa foi uma forma de voltar um pouquinho a esse espírito. Sempre ouvi histórias cheias de carinho lá do Caminho da Fé, sobre o quanto as pessoas eram carinhosas, o quanto elas, literalmente, transbordavam amor (e comida mineira). Me apaixonei por elas nos relatos que ouvia e as amo ainda mais agora que as conheci pessoalmente.

A minha fé no Caminho não é religiosa, a minha fé é naquela gente, que me acolheu com um tipo de amor que eu até então desconhecia.

Dúvidas? Questões? Agonias? Questionamentos? Me pergunta nos comentários que esse é o meu assunto favorito acho que pro resto da vida!