A Mágica da Organização não é o tipo de livro que costumo ler, mas vi o rosto da Marie Kondo em muitas reportagens de divulgação e ela era tão fofinha! E pequena e delicada! Por um momento parecia que ela entraria na minha casa, tal qual uma fadinha, usando sua magia e colocando tudo no lugar para todo o sempre. Além disso, amo a Ásia, amo orientais, amo como conseguem fazer tudo de forma disciplinada (e enchendo tudo com carinhas fofas e rostinhos de mangá). Marie tinha me conquistado.

Cheguei ao final do livro querendo esgana-la, junto com suas roupas carentes e todo mundo que indicou o raio do livro.

Apto 401 - A Magica da Organização

Ela passa capítulos e mais capítulos contando o quanto buscou, desde a mais remota infância, uma maneira de organizar seu quarto e sua casa. O quanto infernizava a vida das pessoas ao seu redor e o quanto a organização é, na verdade, a resposta para a origem da vida, do universo e tudo o mais. Tem muitas horas em que você quer gritar: “Marie, querida, procure um terapeuta!”. Na verdade, me acontecia o tempo todo.

A tal Mágica da Organização é um método dividido em duas etapas: descartar e organizar. Você deve colocar todos os objetos de uma determinada categoria juntos, ir pegando um por um, decidir se deve mantê-lo ou joga-lo fora e organizar o que sobrou. Simples. Mas a chave do burburinho do livro está na pergunta que guia esse descarte: “Esse objeto me trás felicidade?“.

Tá aí. Deixou de ser só organização e virou filosofia de vida. A coisa é mais profunda. O buraco é mais em baixo. Ficou hipster, ficou cool.

Acabei de mudar para uma kitnet e percebo sim a cada dia o quanto preciso de menos pra viver. Tenho preferido abrir mão da quantidade para ter objetos (isso inclui roupas) mais significativos, que me tragam boas lembranças e que me deixem mais feliz. Então eu sei que a sacada da japa é excelente e que se eu tivesse ouvido isso chegando nos 20 e não nos 30, talvez eu tivesse um padrão bem diferente de consumo nesses anos todos.

Mas: ela não precisava de 160 páginas inteiras pra me dizer isso. E. Existem. Limites.

Apto 401 - A Magica da Organização

Eu não precisava ler que:

Passe as mãos pelas roupas. Faça com que saibam que você se importa com elas e que anseia por usá-las novamente. Essa comunicação mantém as peças vibrantes e faz o relacionamento entre vocês durar mais.

E nem que:

Cuidar das nossas coisas com carinho é a melhor forma de motivá-las a nos ajudar. Por essa razão, de vez em quando me questiono se a maneira como as organizo está deixando-as felizes. Afinal de contas, arrumar é a arte sagrada de escolher um lar para os meus pertences.

Também não que:

Tudo o que você possui quer lhe ser útil. Ainda que você jogue o objeto fora ou o queime, sua energia permanecerá. Assim, ao descartar algo, não suspire e diga “Puxa, nunca usei isto” ou “Desculpe-me por nunca ter vestido você”. Em vez disso, despeça-se com alegria, com palavras como “Agradeço por ter me encontrado” ou “Desejo que faça uma bela jornada daqui em diante!”

Muito menos que:

Quando uma mulher está apaixonada, ela muda visivelmente, irradiando energia e vivacidade. Da mesma forma, objetos que são tratados com carinho têm uma aura diferente. É por isso que basta dar uma olhada para saber se um objeto traz alegria de verdade. A emoção genuína da alegria está no corpo e nos pertences, logo não pode ser escondida.

E definitivamente não precisava ler que:

É que percebi que existe uma semelhança significativa entre a meditação sob a cachoeira e a prática da organização. Quando nos sentamos debaixo de uma cachoeira, o único som audível é o do estrondo da água. À medida que a água bate no corpo, qualquer dor logo desaparece e uma dormência se espalha. Em seguida, um calor nos aquece de dentro para fora e entramos numa espécie de transe. Embora eu nunca tivesse experimentado esse tipo de meditação antes, a sensação foi extremamente familiar, pois era bem parecida com a que tenho quando faço arrumações.

Marie enxerga a organização como um estilo de vida e dá um peso exagerado demais a isso. Ela acha que em uma arrumação dessas você pode rever todas as suas prioridades e objetivos (!), mudar de carreira (!), emagrecer (!) e ter sua vida alterada para todo o sempre (!!!).

Apto 401 - A Magica da Organização

Para não dizer que não falei das flores, tem sim boas dicas no livro:

Arrume por categoria e não por cômodo: assim você tem uma idéia melhor do todo.

As coisas tem que ter um lugar fixo e oficial: na maioria das vezes, quando você arruma a casa, acaba apenas realinhando a bagunça, mas sem resolver o problema. Em poucos minutos vai estar tudo fora do lugar de novo. Vale tomar um tempo pensando se esse é um local fácil para guardar o objeto depois de utilizar e condizente com a frequência de uso.

Deixe os objetos com mais apego emocional por último: decidir se você vai ou não descartar algo assim leva mais tempo e fazer isso logo no começo pode te desanimar.

Tudo deve ser feito de uma única vez: isso tem a ver com ânimo, com resultado, com você arrumar por categoria e não por cômodo e também com o emocional, já que ela prega que antes de iniciar uma arrumação dessas, você deve pensar o que deseja alcançar com isso.

Mônica Geller
Em resumo, A Mágica da Organização não tem nada que lá pelos vinte e tantos a gente não tenha aprendido do jeito difícil, não vale se arrastar pelas cento e tantas páginas e issues não resolvidos da mulher.